Fugindo da muvuca

É sempre assim. Fim de ano, época de Natal, e toda a população do Norte gelado deixa seus iglus para se aventurar nos templos de consumo dos shopping centers (ou malls, como são conhecidos por aqui). Já no estacionamento é difícil garimpar uma vaga onde deixar seu carro (de metrô ou ônibus vive-se o sentimento de compartilhar o espírito natalino de perto - muito perto - com as centenas de outras pessoas que tiveram a mesma idéia).

Não gosto muito do aspecto comercial do Natal de dar e receber presentes. Mais vale uma congregação em família, com os amigos ou ajudando desconhecidos do que simplesmente a preocupação com listas intermináveis de presentes e pessoas com a ingrata obrigação de não esquecer ninguém. Lá em casa só as crianças costumam ganhar presentes, porque também não quero ficar conhecido como o Grinch ou Scrooge - que odiavam Natal e queriam estragar o dos outros também. Até gosto do Natal, só não deste consumismo todo.

Mas não é porque é Natal que a sua casa não precisa de uma lâmpada nova, a pia não precisa de um remendo ou a cozinha de uma lata de lixo zero-bala. Coisas normais da manutenção de uma casa continuam acontecendo durante o mês de dezembro da mesma forma que aconteciam nos outros meses do ano. Seu filho também perde luva e gorrinho de frio, ou sua bota abre um furo no meio de uma nevasca. Então lá vai você para as lojas, atrás desses itens normais do dia-a-dia. Mas o que seria uma comprinha rápida, de meia hora, leva uma eternidade. Entre tapas, empurrões, filas e multidões de darem inveja ao Maracanã em dia de Fla-Flu, você finalmente acha tudo que precisava, paga e volta pra casa, prometendo só sair de casa de novo em janeiro.

Se precisar comprar mais alguma coisa este mês vou ao supermercado de madrugada. Ou domingo bem cedinho vou ao Walmart praquelas coisas que não achar no supermercado.

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A invasão

O dólar canadense anda bem forte, valendo mais que o dólar americano. Bem, na verdade o dólar americano é que anda fraco, se desvalorizando diante de tudo, se bobear até diante dos guaranis paraguaios. Os economistas daqui não esperavam uma valorização tão rápida, e não sabem se o fenômeno vai continuar, se agravar ou sofrer uma inversão nos próximos meses. Alguns empresários temem que um dólar canadense muito forte prejudique a economia, que depende das exportações para os EUA, os maiores clientes de produtos canadenses.

Mas enquanto isso, no dia-a-dia o que essa inversão do câmbio tem provocado é uma verdadeira corrida de canadenses aos Estados Unidos. O movimento é grande todos os dias, acentuando-se nos fins de semana. Pequenas e médias cidades americanas perto da fronteira lidam com a invasão como podem, mas é freqüente ver os estoques nas prateleiras das lojas simplesmente acabando no meio da tarde, tamanha a sede com que os compradores canadenses vão ao pote. Roupas, livros, eletrônicos, nada escapa aos olhares atentos dos consumidores loucos atrás de uma pechincha.

Mas será que a economia vale a pena? Por conta do excesso de pessoas cruzando a fronteira, as autoridades canadenses não dão conta do movimento, e os viajantes estão enfrentando longas filas na volta para o Canadá, onde têm que declarar tudo o que compraram e pagar os impostos devidos. Ou seja, você viajaria duas ou três horas, passaria mais quatro na alfândega, para comprar umas camisas e calças e economizar uns $40 no fim do dia?

Claro que a diferença vale mais a pena quando os produtos são mais caros, como carros e eletrônicos de grande porte (uma TV de alta definição, por exemplo). Mas você pode enfrentar mais dor de cabeça se precisar de algum conserto ou garantia que nem sempre são aceitos no Canadá para produtos comprados nos EUA. E, no caso dos carros, algumas montadoras chegaram inclusive a proibir a venda para canadenses, a fim de proteger os interesses das revendedoras ao norte da fronteira.

Uma verdadeira maluquice. Pessoalmente acho que se não estou precisando de alguma coisa, não tem economia de $300 que me faça gastar $1500. Lembrei do meu tio, que sempre falava quando minha tia queria aproveitar uma promoção "incrível": "Ela não poupa gastos pra fazer uma economia."

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Gorjeta demais?

Uma diferença básica para o brasileiro que chega às terras canadenses em relação ao Brasil diz respeito ao valor da gorjeta deixada em bares e restaurantes. Ora, desde o tempo que se vendia guaraná com rolha estamos acostumados a ouvir, calcular e deixar - quando possível - uma gorjeta de 10% pelo serviço do garçom nesses estabelecimentos. Valor redondo, conta rápida. Para uma despesa de R$ 65? R$6,50. R$237? R$23,70. É de praxe, normal e bem aceito.

Mas não pense que você será visto como um mão aberta, generoso e patrono da filantropia se resolver dar um pouco mais que os 10% aqui no Canadá. O valor básico da gorjeta aqui é de 15%. Isso mesmo. Para a conta de $65, $6,50 é pouco e mesmo uma esticada para $8 ainda não é suficiente. Os 15%, nesse caso (e com a ajuda de uma calculadora, porque enquanto a conta de 10% é simples, a de 15% não é tão automática assim), seriam $9,75. Natural que um desavisado recém-chegado ao país receba aqueles olhares nada amistosos dos atendendes nesses estabelecimentos depois de deixar "aquela" gorjeta.

Só que o problema não pára aí. Os bons costumes do país também recomendam dar gorjeta para o taxista, barbeiro, entregador de pizza (e outras comidas levadas até sua casa, mesmo que exista uma taxa de entrega cobrada pela empresa). A meu ver, isso já começa a ficar exagerado. Tudo bem que as pessoas que dependem das gorjetas normalmente ganham pouco e contam com esse dinheiro extra para complementar sua renda. Mas às vezes parece um pouco de oportunismo das empresas lucrarem em cima de seus empregados e esperarem que os clientes, que já pagam valores altos, dêem um dinheiro por fora para reduzir esse problema com o pagamento insuficiente.

Não parece um pouco de exagero pagar 15% de gorjeta para um atendente no balcão de um bar, sendo que o único trabalho que teve foi de se virar e buscar a cerveja no refrigerador? Se você estivesse na mesa, sendo atendido pelo garçom ainda vá lá, é algo mais natural e até aceito em nossa própria cultura.

O mais curioso é que mesmo os canadenses não parecem gostar muito desse excesso de gorjetas. Uma nova pesquisa divulgada esta semana mostra que os canadenses até que dão boas gorjetas em restaurantes e bares, mas nos outros casos é cada vez maior o número de pessoas que ou não dá gorjeta nenhuma ou então dá menos que os 15% de praxe. Os donos das empresas não devem sentir diferença, já que continuam pagando pouco. Já os empregados, esses sim vão pagando o pato, como sempre.

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Livros mais baratos?

Sempre gostei de ler. No Brasil, esse prazer era um prejudicado pelo alto preço dos livros e pela oferta não muito grande de títulos - algo que felizmente tem mudado nos últimos anos. Quando cheguei ao Canadá, senti realmente que estava fazendo parte de um sonho. Além da variedade bem maior de publicações, o preço era sem dúvida mais acessível (pelo menos no que diz respeito a uma comparação um pra um com o real, sem conversão).

Ainda assim, mal-agradecido que sou, sempre ficava vendo nos livros os preços cobrados no Canadá e comparando com os preços impressos logo acima, para os Estados Unidos. Em média, os americanos pagavam 25% menos do que os canadenses para ter direito de ler as mesmíssimas páginas do mesmíssimo livro. Tudo bem, a diferença cambial justificava a diferença e no final das contas os dois públicos pagavam quase a mesma coisa, tirando a pequena diferença de outros custos relativos às diferenças dos dois mercados.

Só que ultimamente o dólar canadense vem subindo bastante em relação ao americano - ou seria o americano que vem caindo, já que o mesmo acontece no Brasil em relação ao real? - atingindo valores recordes para os últimos 30 anos. Um dólar americano vale hoje cerca de 95 centavos canadenses. Não é mais aquela coisa de 75 ou 80 centavos apenas. Só que os livros continuam lá, com aquela diferença de 25% sem sofrer ajustes.

As editoras resolveram tomar uma atitude juntamente com as livrarias e prometem reduzir essa diferença. Porém, como muitas vezes as capas onde os preços são impressos ficam prontas meses antes do livro chegar às estantes, fica difícil prever qual será a situação cambial no futuro. Sendo assim, junto com uma readequação dos preços os editores prometem estudar outra forma para que o preço reflita mais rapidamente esses ajustes cambiais no futuro. É esperar pra ver.

Ah, antes de começar a comemorar muito, os editores pensam em inicialmente reduzir a diferença entre os dois preços dos 25% atuais para 20%, em média. Mas já é um começo. Agora é torcer pra outros setores seguirem o exemplo e passarem a adaptar os preços, como os carros, eletrônicos, ... Sonhar ainda é grátis (tanto em dólares canadenses quanto em americanos).

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