Contradição

Imaginem que eu estivesse querendo abrir uma lanchonete. Com certeza iria precisar de cozinheiros, pessoas para atender o público no caixa, outras para limparem a louça, a cozinha, os banheiros, mesas e chão do estabelecimento. Talvez alguém para fazer a entrega dos lanches na casa dos clientes. Bom, para que meu negócio tivesse a chance de dar algum lucro, eu provavelmente não poderia pagar salários muito altos para meus empregados, já que vários outros custos provavelmente consumiriam grande parte da receita gerada pela venda dos lanches.

Até aí, tudo bem. Mas digamos ainda que eu não quisesse simplesmente contratar qualquer pessoa para trabalhar em minhas lanchonetes. Ao invés disso, iria dar preferência a pessoas com formação superior, talvez com até mais do que um diploma universitário. Talvez a motivação deles fosse um problema, mas pelo menos teria a certeza de que eles provavelmente não teriam dificuldade de aprender as instruções que recebessem para fazer seu trabalho adequadamente.

Provavelmente eu não conseguiria encontrar trabalhadores com essa qualificação dispostos a fazer esse tipo de trabalho. A não ser, talvez, que estivesse no Canadá.

Sim, este país de primeiro mundo têm várias coisas boas e oferece inúmeras oportunidades para os imigrantes que desembarcam aos milhares anualmente por aqui. Mas, para algumas profissões, simplesmente exige um caminho muito tortuoso, demorado e caro para aquelas pessoas vindas de outros países que desejam exercer a mesma profissão ou carreira quando desembarcam por aqui. Torna-se comum então encontrar médicos, advogados ou engenheiros exercendo funções como lavadores de prato, faxineiros ou motoristas de táxi. Nada contra essas profissões, mas as pessoas que as estão exercendo muitas vezes o estão fazendo por total falta de opção, já que sua primeira escolha talvez fosse a de continuar na carreira de sua formação em seus países de origem.

O sistema de imigração canadense tem uma contradição básica em relação ao processo de seleção e a integração dos novos imigrantes à nova vida quando desembarcam por aqui. A seleção leva em conta todos os diplomas, cursos e experiência profissional do candidato a imigrante, dando assim preferência a pessoas com mais educação e mais experiência em suas áreas de atuação. Ao chegar ao Canadá, no entanto, essas credenciais muitas vezes não são aceitas por empregadores, que exigem que o imigrante refaça seus estudos quase que inteiramente antes de receber uma oportunidade em nível inicial de carreira. Todo o processo leva anos, e muitas vezes os novos imigrantes não dispõem do luxo de tempo e dinheiro suficiente para estudar sem receber nenhum salário para custear sua nova - e cara - vida no país de adoção. Com isso, acabam optando por empregos que não exigem qualificação específica, com exigências muitas vezes bem abaixo da formação que possuem.

Claro que isso não é regra para todos, apenas uma realidade que se aplica a muitos que desembarcam por aqui, dependendo da profissão, empregador, experiência e uma série de fatores.

Mas o fato é relativamente sério, a ponto de políticos canadenses finalmente terem notado que precisam fazer algo para tentar acabar, ou pelo menos reduzir, essa contradição. O Partido Conservador, atualmente no poder, está sugerindo a adoção de algumas medidas para tentar atingir esse objetivo. Uma delas seria criar parcerias entre universidades de diferentes países para facilitar o processo de equivalência, antes que os imigrantes chegassem ao Canadá. O governo também estuda a possibilidade de gastar mais com aulas de inglês para novos imigrantes e financiar bolsas para treinamento de profissionais para que estes se adequem às exigências do mercado daqui. Além disso, o sistema de pontos da imigração pode mudar, passando a valorizar profissões que não tenham exigência de formação universitária mas que possam estar em demanda no Canadá (como encanadores ou pedreiros). E até agilizar o processo de imigrantes com habilidades específicas que estejam em demanda, desde que eles estejam dispostos a estabelecer-se fora da área metropolitana de Toronto, por exemplo, onde o número de imigrantes é maior.

Claro que só o tempo vai dizer quais - se alguma - das medidas realmente vai ser adotada. Mas essa disposição de reconhecer publicamente o problema e tentar iniciar o trabalho para resolvê-lo sem dúvida é um ótimo primeiro passo. Vamos ver como serão os passos seguintes.

- Veja mais detalhes sobre as sugestões do Partido Conservador em matéria do Toronto Star.

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